
Ele se deitou na cama. Apesar de saber que deveria dormir cedo porque teria uma importante reunião com a equipe de empresários e representantes no outro dia pela manhã cedo, não conseguiu resistir a uma quinta caneca de café. O resultado não podia ser outro: ficou elétrico.
O fato de não conseguir dormir cedo o incomodava. Afinal, ele tinha que estar pronto para assumir suas responsabilidades como vice-presidente. Mas nem sempre foi assim.
Ele se lembrava de quando era menor. Conseguia dormir, incrivelmente, às nove horas, como mandava sua mãe. E ele não era um ávido bebedor de cafeína. Nem apreciava o gosto amargo da bebida. Um grande copo de leite quente o fazia sonhar rapidinho. Queria essa capacidade de volta.
Lembrava também das brincadeiras, com as quais gastava suas energias à vontade. Com a bola, com o carrinho, com seus dinossauros. Hoje, sua bola era o pau da barraca que ele chutava com força quando as coisas não iam bem. Hoje, o carrinho aumentara de tamanho, se tornando uma grande e luxuosa Ferrari, com ar condicionado, travas elétricas, bancos de couro, direção hidráulica e outras mordomias.
Hoje seus dinossauros se transformaram em colegas do trabalho, verdadeiras feras sedentas por dinheiro.
Ah, como era bom não ter dinheiro.
Na época, ficava feliz em achar uma moeda de 50 centavos no chão. Servia para fazer inveja aos seus colegas sem tamanha sorte. E também, é claro, dava pra comprar uma pipoca, três chicletes e dois pirulitos. Ah, o dinheiro também servia para fazer sua mãe se irritar com as cáries que apareciam por causa dos doces que comprava.
Sua respiração já estava mais relaxada. A cafeína não corria mais louca em seu corpo. Sua cabeça rodava.
Depois se lembrou de uma corrida de carrinho com os moleques do bairro. Como era bom. Só não gostava mais por causa da sua tia, que sempre aparecia no meio da rua com uma trouxa de roupa para secar no varal do terreno baldio mais a frente, ocupando o espaço e atrapalhando a brincadeira.
Mas ele não podia ir tão longe. Sua mãe o proibia de ir além da praçinha. “Lá tem um buraco cheio de cobras e elas podem pegar você se forem acordadas”. Desde que ela lhe dissera aquilo, nunca teve coragem de se aproximar desses animais.
Certo dia, seus pais foram à praia e se esqueceram de levá-lo. Vinham imagens em sua mente de seu eu menor correndo atrás do carro para que não o deixassem para trás. Carregava milhares de brinquedos, cada um com um nome específico. Como sentia falta deles.
Como ficou com raiva de seus pais naquele dia. Em seu rosto escorriam lágrimas de "brabeza". Mas depois a única coisa que escorria do seu rosto era a água salgada do mar. Tão bom esquecer as coisas com um simples banho na praia. Podia ainda sentir o cheiro de peixe frito, junto com o de protetor solar e de sombrinha nova.
Ah, e, é claro, a escola! Como poderia esquecer a velha rabugenta professora Trudite? Seus olhos o fitavam com raiva por não ter feito a lição corretamente. Lembrava de ter sido expulso de sala por ter esquecido o livro de português. Como queria ter fugido naquela hora.
Sentiu seus lábios esboçarem um sorriso.
Luíza, mais conhecida por “Lulu – lata”, por causa do aparelho, foi sua primeira namorada. A mais fiel, a mais companheira, a mais divertida, a mais pura. Foi bom enquanto durou, até ela ter pegado ele e a patricinha da Priscila com os lábios juntos na casinha do parquinho do colégio.
Seu corpo se sobressaltou após ter sentido o tapa da mão pesada de Lulu.
Ele e seus colegas brincavam com os baralhos de monstros até dar o sinal de voltar para as aulas. “Trim-trim”. Um de seus amigos o lembrou da tão temida prova de matemática do professor Edilson. “Trim-trim”. Que sinal chato. “Trim-trim”. O estômago dele afundou ao entrar na sala de aula para fazer a prova. “Trim-trim”. Aquele não era seu despertador?
Seus olhos se abriram. Já era dia lá fora. Olhou ao lado. Não havia nenhuma prova de matemática a sua frente, só uma caneca de café vazia. Tivera o mais nostálgico e maravilhoso sonho de sua vida. Ele olhou para o copo se perguntando se o café o tinha feito voltar no tempo aquela noite. Seu falecido pai sempre o aconselhava a não tomar aquilo antes de dormir, para não “ofender”.
Olhou a foto de seu velho na cabeceira.
- Mas foi só assim para eu voltar no tempo e me lembrar dos tempos de felicidade na minha vida. – explicou ele ao pai.
Levantou-se, tomou uma ducha rápida, comeu uma torrada e foi com sua Ferrari para a realidade.
Felipe Araújo